O Dia de São Valentim, conhecido como Dia dos Namorados, celebra-se anualmente a 14 de fevereiro em Portugal e em vários países do mundo, estando associado à valorização do amor e do afeto através de diferentes gestos simbólicos. Além da sua dimensão cultural e social, esta data possui um significado psicológico mais profundo, ligado à necessidade humana de conexão emocional. Este impulso para o vínculo não se limita às relações amorosas, estendendo-se também às relações familiares, de amizade e ao sentimento de pertença social (Vocal Media, n.d.).

Na Psicologia, o amor é conceptualizado como um constructo psicológico complexo, que integra componentes emocionais, cognitivas e comportamentais, desempenhando um papel central na formação de vínculos interpessoais e no bem-estar psicológico. Não se trata de uma emoção isolada, mas de um fenómeno que envolve proximidade emocional, padrões de pensamento centrados no outro e comportamentos orientados para o cuidado, o compromisso e a manutenção da relação (Aron et al., 2000; Fernandes et al., 2023).

Um dos modelos mais influentes na psicologia das relações é o modelo triangular do amor, proposto por Sternberg (1986), que descreve o amor a partir de três componentes fundamentais: intimidade, paixão e compromisso. A intimidade refere-se à proximidade emocional, a paixão envolve a atração e o desejo, e o compromisso diz respeito à decisão de manter a relação ao longo do tempo. Diferentes combinações destes componentes originam distintas formas de amor, como o amor romântico, o amor companheiro ou o amor consumado (Sternberg, 1986; Papalia & Martorell, 2022).

Apesar de o amor apresentar componentes universais, a Psicologia Cultural evidencia que a sua vivência e expressão são profundamente influenciadas por normas sociais, valores culturais e contextos históricos específicos. Culturas mais individualistas, por exemplo, tendem a valorizar a expressão emocional aberta e a realização pessoal nas relações, enquanto culturas mais coletivistas vivem frequentemente de forma mais contida e orientada para a harmonia social e o compromisso familiar (Markus & Kitayama, 1991; Triandis, 1995).

Estas diferenças culturais refletem-se igualmente na forma como o amor é celebrado, seja na importância atribuída à demonstração pública de afeto, nos gestos românticos ou no significado simbólico de datas como o Dia dos Namorados (Levine et al., 1995; Kowal et al., 2022). Em culturas ocidentais, esta data tende a enfatizar a expressão explícita do amor romântico, enquanto noutros contextos culturais a celebração pode assumir formas mais discretas ou coletivas. Experiências de intimidade, paixão e compromisso variam substancialmente entre culturas, refletindo diferentes expectativas sociais e relacionais (Durkee et al., 2025).

O Dia dos Namorados é amplamente promovido por campanhas publicitárias e marketing, exercendo um impacto significativo na saúde mental. Somos constantemente expostos a campanhas publicitárias, que geram pressão para celebrar o amor de forma grandiosa. Tal pressão pode levar a sentimentos de inadequação, ansiedade e stress, sobretudo em relações problemáticas, abusivas ou à distância (Figueiredo, 2025).

A mediatização da data, reforçada pelas redes sociais, incentiva comparações com outros casais e padrões idealizados de amor, aumentando inseguranças e solidão. Mesmo em relações saudáveis, a necessidade de corresponder a expectativas externas transforma o momento de conexão numa “performance” emocional, com risco de conflitos (Figueiredo, 2025).

Além disso, a ênfase em gestos românticos específicos pode ocultar outras formas de afeto e de amor-próprio, reduzindo a valorização das experiências cotidianas. Assim, o impacto psicológico envolve efeitos sobre autoestima, ansiedade social e perceção de insuficiência pessoal. Reconhecer e praticar o amor-próprio, bem como valorizar diferentes formas de afeto, pode servir como estratégia protetora frente às pressões desta data (Figueiredo, 2025).

À luz da Psicologia, o Dia dos Namorados ultrapassa a dimensão meramente comercial, constituindo uma oportunidade para refletir sobre o amor enquanto fenómeno psicológico e culturalmente construído, essencial para o bem-estar psicológico e para a construção de relações significativas ao longo da vida (Aron et al., 2000; Fernandes et al., 2023). A Psicologia contribui ainda para uma compreensão mais equilibrada desta data, promove relações saudáveis e valoriza as diferentes formas de afeto.


"Dia dos Namorados"

Referências

Aron, A., Fisher, H., Mashek, D. J., Strong, G., Li, H., & Brown, L. L. (2000). Reward, motivation, and emotion systems associated with early-stage intense romantic love. Journal of Neurophysiology, 94(1), 327–337. https://doi.org/10.1152/jn.00838.2004

Durkee, P. K., Kenrick, D. T., Griskevicius, V., Neuberg, S. L., Schaller, M., & Schmitt, D. P. (2025). Cross-cultural data on romantic love and mate preferences from 117,293 participants across 175 countries. Scientific Data, 12, Article 1103. https://doi.org/10.1038/s41597-025-05365-2

Fernandes, M. I., Sousa, C., Conde, A. R., Silva, F., & Ferreira, M. J. (2023). Exploring the relationship between capacity to love and well-being: A comparative study of emerging adults and middle-aged adults. Sexuality & Culture, 28(4), 1424–1445. https://doi.org/10.1007/s12119-023-10184-x

Figueiredo, I. S. (2025, fevereiro 14). Amor ou pressão? O impacto do Dia dos Namorados na saúde mental. Observador. https://observador.pt/opiniao/amor-ou-pressao-o-impacto-do-dia-dos-namorados-na-saude-mental/

Kowal, M., Sorokowski, P., Sorokowska, A., Dobrowolska, M., Pisanski, K., Oleszkiewicz, A., & Huszczo, A. (2022). Modernization, collectivism, and gender equality predict love experiences in 45 countries. Scientific Reports, 12, Article 1731. https://doi.org/10.1038/s41598-022-26663-4

Levine, R. V., Sato, S., Hashimoto, T., & Verma, J. (1995). Love and marriage in eleven cultures. Journal of Cross-Cultural Psychology, 26(5), 554–571. https://doi.org/10.1177/0022022195265004

Markus, H. R., & Kitayama, S. (1991). Culture and the self: Implications for cognition, emotion, and motivation. Psychological Review, 98(2), 224–253. https://doi.org/10.1037/0033-295X.98.2.224

Papalia, D. E., & Martorell, G. (2022). Desenvolvimento humano (14.ª ed.). AMGH.

Sternberg, R. J. (1986). A triangular theory of love. Psychological Review, 93(2), 119–135. https://doi.org/10.1037/0033-295X.93.2.119

Triandis, H. C. (1995). Individualism and collectivism. Westview Press.

Vocal Media. (n.d.). The psychology behind Valentine’s Day: Why we celebrate love. https://vocal.media/humans/the-psychology-behind-valentine-s-day-why-we-celebrate-love?utm_source=chatgpt.com

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